A arte de produzir efeito sem causa, Lourenço Mutarelli.

Eu não escolheria ler o Mutarelli agora, de jeito nenhum. Eu sabia que seria pesado, eu sabia que não podia contar com um livro que me animasse, mas ele veio até mim, e essas coisas a gente não escolhe.
De qualquer forma, o livro foi o que eu precisava, de forma intensa e logômana, ele tem um ritmo ensandecido, cheio de idas e vindas, me absorveu e dois dias depois, tinha sido devidamente devorado (e expôs todas as feridas que lhe cabia expor).
Resumindo, um cara - Júnior - larga o emprego e o casamento, volta pra casa do pai, bebe conhaque e fuma em doses cavalares. Dividido em livro 1 - Efeito - e livro 2 - Nonsense -, acompanhamos Júnior em dois momentos muitos distintos, os dois de queda, mas em velocidades diferentes (e vertiginosas); como isso afeta o seu comportamento consigo mesmo e o quanto é afetado pelas pessoas à sua volta, ainda que ausentes - só pra provar que ausência física não cura feridas, não é garantia de esquecimento, muito menos de perdão.
Não tenho certeza, mas acho que o personagem principal seja a psique do Júnior, o que não deixa de ser a psique de todos nós, em certa medida.

Perturbador, ousado, cruel, nauseabundo - e por isso mesmo visceral, intenso, atraente. Como um baque seco, o livro esclarece muitas coisas pelo modo mais dolorido, não acho que deva ser lido em dias de crise ou quando há excesso de desesperança. Mas quando os pés bambeiam, é bom saber que tem coisas ainda mais pesadas, ainda mais intensas, pra se sentir nublado, e com força nos pés. Não é?

MUTARELLI, Lourenço. A arte de produzir efeito sem causa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.




(E, obrigada, estou certa de não estar louca, nem em vias de.)

Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar.

Fazia tempo que eu não sabia amar tão bem um escritor. Sem querer, achei um livro dele, que fazia um monte de referências a cronópios, famas e esperanças. E como uma surpresa, esse livro me fez cair de amores.
Quem nunca foi cronópio, ou fama, ou esperança uma vez na vida? Quiçá, todos os dias. E se você for como eu, já vai correr para um dicionário, a fim de descobrir bem logo quem raios são esses. pois não perca tempo, eles não estão dicionarizados. E, quando estão, tem nada que entender, com os tais do livro.

Julio Cortázar fez uma das coisas mais lindas de se ler nesse livro, uma delicadeza, uma sutilidade. São contos breves - alguns não chegam a ter meia página - e intensos. De criar sorrisos nas caras e pensar bem: ah, eu já fiz isso.
São contos de pensar, de rir, de desejar - e, confesso - alguns de não entender, pelo menos nessa minha cabecinha.

Recomendo Cortázar pra quem perdeu as próprias palavras, ou nem nunca tinham tido um relacionamento estreito. Os mistérios e levezas fazem as idéias pularem, ferverem, são jorros criativos. (eu, particularmente, acho que todo ser vivente deve lê-lo uma vez, que seja. Ou duas, os três, porque o livro ainda tem aquele mistério de se transmutar a cada leitura.)



A juíza sem juízo do reino do IêIêIê adverte: esse livro pode causar arroubos, fugas e gargalhadas descomedidas em locais públicos e privados.

Como me tornei estúpido, Martin Page.


Quem nunca pensou numa lobotomia de risco que atire a primeira pedra. Às vezes simplesmente cansa. Pensar tanto, sofrer tanto. Uma alegria torpe e inconsciente é tudo que falta para uma boa vida. Ou não?

Nesse livro curtinho, rápido e bem humorado, Page narra a história de Antoine, que por pensar demais, decide ser estúpido. Anti-depressivos e uma vidazinha medíocre são a solução racional que o personagem encontra para aliviar as dores de consciência que todo bom mortal já teve. Oscila entre o trivial e o tenso, a todo minuto. Admito que tem umas passagens bobinhas. Mas tem longas cenas que eu, você e todos nós nos encontramos, na pele do malfadado Antoine.

Vale a pena pelo dilema existencial. E, se duvidar, pra gente parar de reclamar de tanto pensar/ sofrer/ sentir.


PAGE, Martin. Como me tornei estúpido. São Paulo : Rocco, Safra XXI, 2004.

Pra ler, escrever, ler.

A idéia é que muitas pessoas escrevam sobre o que estão lendo. Indicando, recomendando, ou simplesmente metendo o pau.
Espero poder inaugurar em breve.

Interessados, falem comigo.